25 de setembro de 2010
Um dia na cidade do nada
As gotas de sangue fluíam por entre as pernas cruzadas, gotejavam dos dedos, dos membros já exauridos e cinzentos, e dos olhos opacos caiam lágrimas ácidas, doíam ao passar pelas pupilas já vermelhas, eram gotas de pedra. Ao cair, juntavam-se ao sangue dos dedos que exalavam o cheiro forte de tabaco. Sua tristeza não valia a água correndo. Até os pombos negros da velha praça já não voavam, iam recostados em automóveis, frágeis parasitas. Um parasita, lá estava ela, olhando para os carros engarrafados, ouvindo as buzinas pertinentes, sentindo o cheiro de fumaça e cachorros quentes. Desconstruira tantos valores que já não restara nenhum. Sucumbira da melhor forma, não podia mais negar-se pois já estava morta por dentro.. talvez um dia retornasse, e então tentaria voar com aqueles pombos fedorentos, os mesmos pombos que bebem a agua turva das poças, e catam as migalhas deixadas por quem não olha as crianças nos balanços ou os velhos curvados de tanto peso. Observava.. mas agora olhava tudo com indiferença. Talvez um dia retornasse.
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