Pensou que nunca mais conseguiria dialogar com seu filho não parido. E toda vez, ao acordar, frustava se por agarrar desesperadamente o caderno, posto premeditadamente na madrugada anterior ao lado da cama, e não recordar do que segundos atrás estava maduro, talvez não belo, não cortês, porém lúcido. Com cores muito bem definidas, e gostos, por vezes agradáveis - por vezes.
Pensou que toda afoiteza gasta com a vida que agora vivera, o afastasse, o assustasse. Conhecia seu menino, nunca fora dado a pompas e cortejos em demasia, muito menos a alegrias que não fossem efêmeras. Sentia saudades também, mas estava feliz. Medo também, mas não faria nada além de viver. Em frente apenas via um céu todo adornado em fitas coloridas, alguma ruga de cautela e melancolia, mas havia por todo lado música e poesia.. em baixo do céu não enxergava nada além de um abismo, mas não se tratava de um. Se tratava apenas uma descida por demais inclinada, daquelas que não se sabe onde vai dar quando se está chegando no topo, e que sopram um frio excitante na barriga. Não mais pensaria em voltar.
Tudo passa, foi o que aprendera.
Mas tudo que passa fica um pouco,
revezes muito.
Raissa Rodrigues
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