1 de janeiro de 2011

A última cerimônia

Fez questão de esquecer que aquela data aproximava se. Foi dormir como fosse um dia qualquer, igual em normalidade, em cotidiano, na beleza do ócio. Então durante o sono os primeiros sinais de que aquilo não sairia de dentro de si tão facilmente começou a surgir, a lua iluminou o cenário de uma estranha reunião em que se despediria de um ente amado, seu amor. Mas pouco aquilo se assemelhava a uma despedida já que ele fora arrancado a força, com seu, porém, triste consentimento. Abriu os olhos, e ali ficou por um tempo que não sabia determinar com exatidão o quanto. A lembrança do sonho durou muito pouco, disso se sabe, o que ficara passando pela cabeça semi acordada é que até hoje ela busca saber. No inicio foi tristeza sim, no entanto desconhecia o motivo.. não importa, as vezes todos acordamos desse jeito, amanhã passa. Até que abriram a porta - comece a se arrumar filha, é hoje. - Tudo começa a se encaixar, e um misto de ansiedade, com alegria –pouca, mas existente- e tanta tristeza, tanta, aflorou de seu peito, como que estivesse a muito guardada, como soubesse que um dia teria que sair, mas procurava fugir dessa realidade. Vestiu pela ultima vez aquela farda branca e azul, linda. Abotoou todos os botões com uma exatidão e equilíbrio que talvez nunca tivera durante todo aqueles anos a serviço daquela paixão, daquele amor. Fazia-o sem pressa, como talvez também poucas vezes o tivesse feito. Calçou os sapatos pretinhos e deixou o ultimo detalhe para o final. Aquilo que levavam todos os dias consigo sobre o peito, que às vezes ela até esquecia e nem se importava - talvez porque sua presença tivesse a muito sob o peito- aquelas estreles, poucas, mas que ousavam brilhar mais que qualquer constelação. Alfinetou-as com cuidado para não machucá-las e saiu junto aos seus, para aquela cerimônia esplêndida, a última.

Lá, tudo que vivera seria afastado, mas nunca amputado, seria enfim deixado para trás como uma doce recordação. Transformar-se-ia como magia, em antigas fotografias guardadas com zelo em velhas caixas de madeira. Em lembranças de mentes brilhantes, em lembranças que nos seguiriam até quando primeiros cabelos brancos insistissem em tomar conta das cabeças que sonhavam o mundo, almejavam utopias e partilharam todas as alegrias que a juventude pudesse dar. Transformar-se-iam em sorrisos e em lágrimas. O que sentia não podia definir, até hoje não se pode. Chegou e encontrou os companheiros, todos igualmente fardados com orgulho e maestria, as lágrimas já caiam nos rostos dos mais sensíveis, mas no dela estranhamente permaneciam quietas. Sentou-se para ouvir o discurso que a levaria a uma viagem de lembranças, de amores, solidão, lutas, e as lágrimas enfim chegaram. Entrara com alguns poucos centímetros e saíra uma mulher, entrara com nenhuma certeza, e saíra com milhões de dúvidas, mas também inúmeras conquistas, valores - por vezes a desconstrução deles- amigos, e uma bagagem de vida bastante pesada para uma jovem de sua idade. Seu sangue corria agora por aquelas paredes, unira-se a uma comunidade inteira de admiradores que ali cresceram e aprenderam a andar com suas próprias pernas, faziam todos parte de uma mesma família, uma muito especial que os anos não poderiam destruir.

Quando se corta o umbigo umbilical, o filho se torna livre para crescer, aprender e enfrentar a vida. Não se tem mais a proteção materna, mas o amor nunca deixará de ser transmitido a cada segundo de sua vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário