9 de fevereiro de 2011

A Senhora

Chegara novamente pela porta de madeira esbravejando, atravessara-a com tanta fúria que mais um pouco teria quebrado a pequena coroa de flores que tão graciosamente a senhora colocara. Da cozinha ela ouvira e por um segundo até se assustara, mas logo veio a lembrança de que aquilo era tão corriqueiro que era tolice o espanto, e embora seu peito se enchesse de angustia toda vez que o homem entrava pela porta naquele estado de desequlíbrio, um sutil sorriso escapou de soslaio, um sorriso de quem enfrentaria tudo pela milésima vez, um sorriso talvez de resignação. Então levantou-se e com toda a humildade que podia arrancar do seu eu amargurado, cuidou do homem, rápido o suficiente para que não ferisse aos seus. Isso ela não permitiria. Quando se tratava de causar dor a quem mais amava, se tornava a mulher mais forte do mundo, e uma força quase hercúlea a tomava, embora a idade avançada não ajudasse tanto.
Cuidou, alimentou, deu de beber. O homem buscava na embriaguez a fuga para suas dores mais profundas, dores que provocariam compaixão de quem as visse, mas carregava no peito orgulho suficiente para não deixar que nenhum sentimento de fraqueza escapasse, o denunciasse. A agressividade era a melhor máscara que podia se valer, ninguém sabia porém que a cada ferida impressa na mulher, uma maior ainda abria em seu peito, mas este já estava tão debilitado que mal as sentia. O copo era a fuga rápida e ineficaz para uma vida mutilada, uma existência deficiente em amor. Não buscava redenção, não buscava mais nada.
Durante a noite a velha chorava, ja nem sabia mais porque as lágrimas escorriam, talvez porque o peito doesse de fato, a dor física da amargura.
-Ta tudo bem vó, eu ainda to aqui, ainda posso te ouvir..

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