18 de abril de 2010

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Nas noites de inverno costumava passear por entre as árvores da encosta. E toda noite lá estava recostando-se nessa ou naquela que a chamasse atenção, e era dessa forma que distraia sua solidão. Apegava-se a um flamboaiã vermelho, e entristecia-se quando esta sucumbia, às vezes pelo desgaste do tempo. Às vezes também a abandonava porque soltavam sementinhas amargas sobre seu peito enquanto tentava descansar. Mas nunca ficava muito tempo sem uma companhia, pois assim, sentia-se perdida, aflita e não demorava muito lá estava, recostada em uma nova flamboaiã vermelha, pois assim estava novamente segura. E se perdia no tempo, sem, no entanto, se perder nas horas. O pensamento longe, as longas divagações, e até suas inquietações não a deixava alheia ao mundo. E de tanta paixão e dedicação as árvores vermelhas, um dia se tornou uma delas.

Buscava, porém sustento em galhos fracos e podres, sem procurar a firmeza em seu próprio tronco. Via a seiva de seu coração fluir para fora, enquanto tentava roubar dos galhos secos a doçura que tanto necessitava. De vez em vez beijava certas flores, e inalava o suave perfume e beleza que podiam oferecer, mas não tanto quando gostariam.
E assim vivia a mulher, escrava da sua paixão eterna pela própria paixão. Chamando atenção dos que por ingênua pretensão a observam e acompanham seu olhar penetrante e enigmático. Mergulhava no amor dos homens como quem mergulha em um profundo lago, sem poder sair, sem querer sair.



Épiphanie

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