5 de novembro de 2010

Capitães do Asfalto

E lá estão eles. De manhã, em baixo de portas ou telhados sempre furados. Estão protegendo-se do frio, da chuva, mas quase sempre desse calor palpável, que chega a agredir, quase molestar. A tarde estão caçando o santo pão de cada dia, aquele mesmo que nosso Senhor ''dá'' pra todos aqueles que rezam, mas estes não sabem rezar. Nem todos suportam a humilhação das ruas, nem todos se prestam a esmolar trocados, então furtam, xingam, cospem, coçam o saco na frente das velhinhas elegantes, e riem. Riem da própria desgraça, pra não lembrar que alguém esqueceu de suas existências, que ''alguéns'' não se importam. Estão cansados de esmolar dignidade, então roubam mesmo.
Ninguém porém conhece essa cidade melhor que eles, cada ruela. E ninguém consegue achar divertimento melhor na pobreza do que eles. Estão por ai, navegando por entre os automóveis, tragando cigarrilhas fumadas pela metade, retirando água em pedras, e comida não se sabe donde. Seduzindo mulheres -mas só se deitam com putas - brigando, dançando, por toda parte, em praias, bailes, bocas, valas..
São jovens porém mais vividos que estes nunca vi. Lá estão, todos os dias pra quem quiser ver, são os Capitães do Asfalto, livres que chega a dar inveja, queria eu saber arrancar o riso do peito feito eles, o riso em meio a tragédia. Mas eles não ligam, sabem xingar e cuspir a vida. Tão lá, só que ninguém que ver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário